
A história da busca por uma vacina capaz de combater o vício em cocaína tem pelo menos 20 anos.
Muitos estudos foram feitos. Nenhum trouxe resultados realmente animadores. A primeira razão para otimismo surgiu na semana passada. Cientistas americanos apresentaram os dados de um estudo realizado durante 24 semanas com 94 dependentes da droga. Pela primeira vez, uma vacina contra a cocaína atingiu 38% de eficácia. Ou seja: a cada três pessoas submetidas às injeções, uma produziu um nível elevado de anticorpos contra a droga. O resultado, nesses pacientes, foi uma redução significativa do consumo de cocaína. “Para esse tipo de estudo, uma taxa de resposta de 38% é altíssima”, diz o psiquiatra Arthur Guerra de Andrade, supervisor do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Hospital das Clínicas da USP. “Esse resultado é fantástico considerando-se que as taxas de sucesso do tratamento convencional são ainda menores”, afirma. Apenas 30% dos dependentes submetidos ao tratamento convencional (baseado em psicoterapia, internação em clínicas de reabilitação e, eventualmente, no remédio topiramato) conseguem de livrar do vício. A recuperação ocorre, infelizmente, na menor parte dos casos. Isso explica o entusiasmo dos especialistas diante dos resultados da vacina publicados na semana passada no periódico Archives of General Psychiatry. Os melhores resultados foram observados nos voluntários que receberam cinco injeções. Não foram relatados efeitos colaterais graves. A vacina não evita que uma pessoa se vicie em cocaína. Ela funciona como um recurso adicional que poderá ser oferecido aos que estão decididos a se livrar da droga. A estratégia que levou ao desenvolvimento da vacina é muito interessante (confira a ilustração no final deste texto).
A natureza inventou uma forma inteligente de proteger o cérebro de substâncias químicas presentes no sangue. É a chamada barreira sangue-cérebro. Essa barreira é formada por uma rede de células bem agrupadas na parede dos vasos capilares do cérebro. A cocaína, porém, é composta de minúsculas moléculas. Por isso, consegue atravessar essa barreira e chegar ao cérebro. Para criar a vacina, os cientistas ligaram moléculas semelhantes às da cocaína numa proteína maior. Dessa forma, o sistema imune consegue reconhecer a proteína e o que ela transporta. O objetivo da vacina é fazer com que o corpo produza anticorpos contra a cocaína. Se um número suficiente de anticorpos for criado por meio de repetidas injeções, eles podem inativar a droga antes que ela chegue ao cérebro. Foi isso o que aconteceu no estudo publicado na semana passada. “Os anticorpos reduziram a entrada da cocaína no cérebro”, diz o psiquiatra Thomas Kosten, do Baylor College of Medicine, que liderou a pesquisa. “Dessa forma, a cocaína deixou de produzir o efeito que a torna viciante”.