
Segundo o autor do livro, o desejo de ter filhos quase sempre supera os conflitos religiosos
Um em cada dez casais atendidos pelo especialista em reprodução humana Arnaldo Schizzi Cambiaghi traz conflitos religiosos ao consultório. Após presenciar dúvidas e angústias de pacientes ao longo da carreira, ele decidiu escrever um livro que traz a questão à tona, com relatos de representantes de diferentes religiões e filosofias sobre procedimentos como fertilização in vitro (FIV) e congelamento de embriões.
"Os Tratamentos de Fertilização e as Religiões – O permitido e o proibido" (IPGO/LaVidapress) é o 11º livro de sua autoria e apresenta o que o autor chama de "biorreligião". O objetivo, segundo o médico, não é dizer qual crença é a mais ou a menos correta, apenas mostrar como seguidores de determinadas crenças lidam com esta este assunto tão atual.
"Felizmente, na maioria das vezes, o desejo de ter um filho supera os conflitos religiosos", conta o especialista em entrevista ao UOL Ciência e Saúde. Como ele comenta, lidar com algo frustrante como a infertilidade já é algo delicado para os pacientes. Quando a religião do casal é contrária ao tratamento, entçao, tudo fica mais difícil ainda.
O livro mostra que a religião católica é a que mais impõe limites aos procedimentos de reprodução humana, além de ser a que tem maior número de seguidores no Brasil, como confirma o Censo de 2000, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). É a única doutrina sobre a qual o médico dedicou algumas páginas extras, intitulada "O outro lado da moeda". "Escrevi algo que, sem entrar em conflito com os dogmas desta religião, mostra que pode existir uma saída aceitável onde o amor prevaleça, enaltecendo as relações afetivas e colocando de lado o egoísmo, sem perder os princípios religiosos", justifica.
Embora Cambiaghi considere (com razão) que não é o caso de divulgar sua própria crença, a editora do UOL Ciência e Saúde não resistiu e fez a pergunta. A curiosidade foi despertada não apenas pelo capítulo extra, mas também pelo agradecimento "a Deus", explícito no início do livro. A resposta? Sim, ele é católico. E vai à missa.
UOL Ciência e Saúde: Com que frequência seus pacientes trazem a questão religiosa para o consultório?
Arnaldo Schizzi Cambiaghi: Um em cada dez casais. Recebemos casais com estas questões, embora, felizmente, na maioria das vezes, o desejo de ter um filho supere os conflitos religiosos. Entretanto, quando isso acontece, a maior dificuldade está nas divergências entre o homem e a mulher. Muitas vezes aquele que discorda do tratamento não conhece os verdadeiros princípios de sua religião e não apoia o seu cônjuge no uso dessas tecnologias, tornando a relação dos dois difícil e o casal, infeliz. É este objetivo deste livro: esclarecer o que cada religião pensa dos tratamentos, o permitido, o proibido e as orientações que merecem interpretações diferentes.
UOL Ciência e Saúde: Nos casos de FIV em que o paciente se recusa a descartar ou doar os embriões excedentes, qual é a conduta médica?
Cambiaghi: É comum este tipo de preocupação dos casais e deve ser também do especialista que deles trata. Por isso, no início do tratamento, estas dúvidas devem ser apresentadas. O descarte de embriões é proibido pela lei e pela ética. Uma alternativa que recomendo é a fertilização de poucos óvulos. Os excedentes que não forem congelados poderão ser descartados: embrião é vida, é proibido o descarte; óvulo é uma célula, não é vida, portanto o descarte é permitido.
UOL Ciência e Saúde: A questão de como lidar com pacientes religiosos é abordada nos cursos de especialização em reprodução assistida? Na sua opinião, é um quesito importante na formação do médico?
Cambiaghi: Todo médico deve exercer a medicina na sua plenitude segundo os princípios éticos do Conselho Federal de Medicina. Isto inclui a proibição de qualquer discriminação dos pacientes que atende. Pelo contrário, deve adaptar-se à sua especialidade e respeitando os princípios religiosos dos seus pacientes. Isso faz parte das aulas de ética na faculdade de medicina. Entretanto, o profissional não é obrigado a realizar procedimentos que contrariam os seus próprios. O respeito deve ser mútuo e isto faz parte da formação de qualquer profissional da saúde.
Um em cada dez casais atendidos pelo especialista em reprodução humana Arnaldo Schizzi Cambiaghi traz conflitos religiosos ao consultório. Após presenciar dúvidas e angústias de pacientes ao longo da carreira, ele decidiu escrever um livro que traz a questão à tona, com relatos de representantes de diferentes religiões e filosofias sobre procedimentos como fertilização in vitro (FIV) e congelamento de embriões.
"Os Tratamentos de Fertilização e as Religiões – O permitido e o proibido" (IPGO/LaVidapress) é o 11º livro de sua autoria e apresenta o que o autor chama de "biorreligião". O objetivo, segundo o médico, não é dizer qual crença é a mais ou a menos correta, apenas mostrar como seguidores de determinadas crenças lidam com esta este assunto tão atual.
"Felizmente, na maioria das vezes, o desejo de ter um filho supera os conflitos religiosos", conta o especialista em entrevista ao UOL Ciência e Saúde. Como ele comenta, lidar com algo frustrante como a infertilidade já é algo delicado para os pacientes. Quando a religião do casal é contrária ao tratamento, entçao, tudo fica mais difícil ainda.
O livro mostra que a religião católica é a que mais impõe limites aos procedimentos de reprodução humana, além de ser a que tem maior número de seguidores no Brasil, como confirma o Censo de 2000, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). É a única doutrina sobre a qual o médico dedicou algumas páginas extras, intitulada "O outro lado da moeda". "Escrevi algo que, sem entrar em conflito com os dogmas desta religião, mostra que pode existir uma saída aceitável onde o amor prevaleça, enaltecendo as relações afetivas e colocando de lado o egoísmo, sem perder os princípios religiosos", justifica.
Embora Cambiaghi considere (com razão) que não é o caso de divulgar sua própria crença, a editora do UOL Ciência e Saúde não resistiu e fez a pergunta. A curiosidade foi despertada não apenas pelo capítulo extra, mas também pelo agradecimento "a Deus", explícito no início do livro. A resposta? Sim, ele é católico. E vai à missa.
UOL Ciência e Saúde: Com que frequência seus pacientes trazem a questão religiosa para o consultório?
Arnaldo Schizzi Cambiaghi: Um em cada dez casais. Recebemos casais com estas questões, embora, felizmente, na maioria das vezes, o desejo de ter um filho supere os conflitos religiosos. Entretanto, quando isso acontece, a maior dificuldade está nas divergências entre o homem e a mulher. Muitas vezes aquele que discorda do tratamento não conhece os verdadeiros princípios de sua religião e não apoia o seu cônjuge no uso dessas tecnologias, tornando a relação dos dois difícil e o casal, infeliz. É este objetivo deste livro: esclarecer o que cada religião pensa dos tratamentos, o permitido, o proibido e as orientações que merecem interpretações diferentes.
UOL Ciência e Saúde: Nos casos de FIV em que o paciente se recusa a descartar ou doar os embriões excedentes, qual é a conduta médica?
Cambiaghi: É comum este tipo de preocupação dos casais e deve ser também do especialista que deles trata. Por isso, no início do tratamento, estas dúvidas devem ser apresentadas. O descarte de embriões é proibido pela lei e pela ética. Uma alternativa que recomendo é a fertilização de poucos óvulos. Os excedentes que não forem congelados poderão ser descartados: embrião é vida, é proibido o descarte; óvulo é uma célula, não é vida, portanto o descarte é permitido.
UOL Ciência e Saúde: A questão de como lidar com pacientes religiosos é abordada nos cursos de especialização em reprodução assistida? Na sua opinião, é um quesito importante na formação do médico?
Cambiaghi: Todo médico deve exercer a medicina na sua plenitude segundo os princípios éticos do Conselho Federal de Medicina. Isto inclui a proibição de qualquer discriminação dos pacientes que atende. Pelo contrário, deve adaptar-se à sua especialidade e respeitando os princípios religiosos dos seus pacientes. Isso faz parte das aulas de ética na faculdade de medicina. Entretanto, o profissional não é obrigado a realizar procedimentos que contrariam os seus próprios. O respeito deve ser mútuo e isto faz parte da formação de qualquer profissional da saúde.
Tatiana Pronin Editora do UOL Ciência e Saúde