
O dia internacional da mulher nos remete a duas realidades diametralmente opostas. Se por um lado comemora-se a conquista de direitos adquiridos através da dor e do testemunho de muitas mulheres ao longo da história, por outro lado se revelam as diferenças e indiferenças com a mulher, que continuam a assolar nossa sociedade em capítulos lamentáveis de violência e muitas vezes de morte.
A forma como uma sociedade trata as mulheres termina sendo o fiel da balança que aponta para onde essa mesma sociedade quer caminhar, pois a perseguição à mulher ao longo da história tem arrojado civilizações ao atraso e à tirania.
A forma como uma sociedade trata as mulheres termina sendo o fiel da balança que aponta para onde essa mesma sociedade quer caminhar, pois a perseguição à mulher ao longo da história tem arrojado civilizações ao atraso e à tirania.
A idade média não deixa margem de dúvidas sobre esse argumento. Um exemplo recente dessa realidade é o Afeganistão. Após a saída do domínio da então União Soviética, o país apresentou um crescimento econômico, cultural e social tão significativo que sua capital, Cabul, chegou a ser chamada de “Paris do oriente”, até que um grupo radial autodenominado Talibãs assumiu o poder e passou, entre outras práticas arcaicas, a restringir violentamente o papel da mulher na sociedade, o que fez com que o país entrasse em colapso econômico e social, experimentando uma profunda decadência, tudo isso antes mesmo do ataque americano após 11 de setembro. Muitos se perguntam: qual o motivo de, em sociedades democráticas como as ocidentais haver necessidade dos movimentos feministas? A resposta é simples. Mesmo em sociedades democráticas as mulheres precisam lutar por seus direitos, pois os sindicatos e os demais movimentos de libertação política pouco fizeram na defesa do direito a igualdade de gênero. Até porque a luta sindical passa por reformas que priorizam mudanças econômicas e sociais enquanto que o movimento feminista luta por mudanças culturais. A china, por exemplo, está cada vez mais mergulhada na economia de mercado e, por pressões externas, têm aprovado leis contra o aborto de meninas e contra a agressão física às mulheres. Entretanto essas práticas continuam, pois fazem parte da cultura daquele povo, o que não se altera com decretos, mas com a luta incessante e incansável pela mudança dos costumes. Eis aí a diferença entre lutas por mudanças políticas e mudanças culturais. Do lado de cá do mundo judaico-cristão há os que apregoam que as relações eram mais estáveis no passado, uma vez que havia menos separação conjugal, já que a mulher cumpria o seu papel, interpretação equivocada e simplista que tenta esconder a tirania sobre a qual muitas mulheres viviam, com a leniência de uma sociedade acostumada e condicionada por frases do tipo: “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”. E por isso muitas foram espancadas até a morte sem que uma única colher de indignação fosse colocada. Normalmente, se insinua nas entrelinhas desses discursos que a mulher está violando o seu lugar de "subordinada". São homens que se sentem ameaçados em seu domínio social e poder masculino, e que ao invés de repensar atitudes e costumes equivocados, optam por subjugar e oprimir, para que possam continuar se sentindo “grandes”. Não há como negar o mérito do feminismo ao alterar a visão de mundo e da sociedade, especialmente a sociedade ocidental, abrindo caminho para conquistas indeléveis, especialmente no campo da cultura e do direito, onde muitas mudanças foram conquistadas. Todavia, naturalmente nem tudo foi acerto no feminismo. Em resposta a séculos de opressão vinda do universo masculino, parte do discurso feminista se concentrou em apontar o homem como o símbolo do atraso, da brutalidade e da estupidez, um predador sem limites que cai na vala comum dos machistas e tiranos. Na verdade o universo masculino ainda não passou por transformações tão profundas como as ocorridas com o universo feminino nas últimas décadas, e por isso mesmo talvez seja esse o momento de se repensar a forma como os homens têm lidado com o feminino, afinal homens e mulheres compartilham as mesmas necessidades de afeto, aceitação e respeito. O feminismo nos dias de hoje deve ser visto não como uma doutrina política, mas como uma busca pessoal pelo respeito, igualdade e dignidade, pois devemos todos nos reunir numa grande luta, não entre homens e mulheres, mas entre o respeito e a intolerância, afirmando a liberdade inviolável do ser humano, não importando o sexo, a raça ou a religião professada por ele. O que se busca é construir a liberdade, a racionalidade e tolerância nas sociedades de hoje e de amanhã, de forma que estes valores não pertençam nem aos homens nem às mulheres, mas que sejam um patrimônio moral da humanidade.
Rossandro Klinjey