
A única incógnita nas eleições gerais da Argentina, realizadas no domingo e encerradas com a esperada reeleição de Cristina Kirchner, era a divisão de poderes no Congresso do país. E os 54% que Cristina obteve nas urnas se refletiram nas eleições legislativas, dando a ela maioria no Senado e também na Câmara de deputados. O maior medo da oposição, que está dividida e desunida, é que, com o poder renovado, Cristine busque mudar a Constituição para poder permanecer no poder. É um cenário semelhante ao que houve no Brasil após a reeleição de Lula, em 2006, e que não se concretizou.
Na imprensa argentina, quem vocaliza o medo é o analista Marcelo Helfglot, do jornal Clarín, publicação que trava uma guerra com a presidente e reclama de uma tentativa de calar a imprensa. Helfglot lista vários projetos polêmicos que Cristina pode avançar no Legislativo com as maiorias que obteve e afirma que, enquanto não obtém dois terços do Congresso (o que é necessário para mudar a Constituição e que só poderá ser obtido nas eleições legislativas de 2013), a estratégia de Cristina é retomar o debate sobre o sistema parlamentarista.
A maior novidade do cenário que se assoma será a instalação de um debate sobre os benefícios de adotar um sistema parlamentarista, com um primeiro-ministro que assuma as funções presidenciais. Neste caso, Cristina ficaria habilitada para re-reeleições por tempo indefinido. Esta seria, segundo fontes parlamentares do oficialismo, uma primeira etapa para gerar consenso sobre a necessidade de uma reforma constitucional. Como mesmo com seu avanço de ontem o oficialismo ainda está longo dos dois terços em ambas as casas que são necessários para uma modificação na Carta Magna, a decisão de colocar em marcha o experimento seria adotada com a renovação legislativa de 2013.
Por José Antonio Lima - Foto: Victor R. Caivano/AP - Do Época